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Ventania

In two days tomorrow will be yesterday.



Domingo, 31.05.09

...

 






     Kundera já me tinha aprisionado nos seus enredos, metáforas inebriantes, onde sempre me fazia sentir mais próxima de mim, ou daquela que pretendia ser. Comecei pela óbvia, inevitável, Insustentável Leveza, sequiosa de emoções poéticas como só na adolescência se consegue, do alto duma incipiente arrogância intelectual que não domei convenientemente até hoje. Foi assim que descobri que “A Vida Não É Aqui”, ou que antes aquela inconformada sentença me pescou irremediavelmente, nos iscos palavreosos do poeta Jaromil. Jaromil, nome curioso que nunca se me despegou da memória, do protagonista que fazia sentir à deriva nos ecos da sua estória. Estranho duplicado de intenções… Chorava-lhe as dores como se fossem minhas, vivia as suas ousadias como se me pudesse atrever.



Este é um romance sofrido, distante, ou talvez demasiado pessoal, que me deixou, escritas em cicatrizes, algumas mágoas angustiantes (como a da penúltima página, quase como um castigo, se me abrir numa estéril brancura, nua de sequer um esboço de letra).


Hoje, à distância de mais de uma década vertida, entre o gotejar de dias e horas e apressados anos de fotografias trémulas, já nem saberia reproduzir a narrativa com um mínimo de fidelidade. Traiçoeira, ou apenas selectiva, a memória que me fez guardar deste romance o que de melhor me trouxe: um sentimento de identificação de ideais, de não conformidade, da diferença que acreditava então ser fulcral à afirmação pessoal. Hoje, ao invés de chorar por estar deslocada na vida, ou esta deslocada de mim, julgo ter aprendido que maravilhoso é o aprender, o buscar, a verdade de quem se é; que a aventura da viagem é de facto mais importante que a chegada a um destino previsível.

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por Ventania às 23:18

Quinta-feira, 28.05.09

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"E os sentimentos que carregamos, que levamos ao colo, são tantas vezes o tudo desta nossa viagem, mas que também voam com o fumo."


 


Teresa Vieira


 

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por Ventania às 23:46

Segunda-feira, 25.05.09

À janela, no Chiado

Não me esqueceu da data: 20 de Março. Foi quando batalhava contra a verdade e a memória; tentava esquecer-me que ele existiu e que a sua existência arrombou os cadeados da minha. Tentei esquecer todas as coisas que me ensinou e os sentimentos que me apanharam na curva e me acagaçaram de morte. Apaguei as fotografias, proibi-me (e, com a força das expressões de dor que devia transpirar na altura, a todos quantos adivinharam a estória) de pronunciar o seu nome, de sequer falar dos sítios em que a realidade se tinha tornado um lugar melhor. Queria fingir que as lembranças dos sabores da pele e da língua dele eram de outro, ou dum qualquer. Quanto mais me forçava a ignorar a sua presença, mais a sua ausência ecoava em cada movimento dos ponteiros. Tentei substituir a sua imagem na minha cabeça mas a cada pestanejo ele me surgia de sorriso aberto até ao canto dos olhos; o mesmo sorriso que me virou as tripas e a lógica e o coração do avesso; os mesmos olhos que, cerrados, me fitavam na noite, desde a primeira, em que me soube rendida àqueles contornos de amêndoas tristes, quebrando todos os silêncios. Tentava, com todas as minhas forças, bani-lo de mim. E chorava, no escuro (eu, que nunca chorava!), com a falta dele a meu lado na cama, com o abismo da diferença entre o que era e o que tinha sido. Chorei também acompanhada, azul de vergonha, em frente a todos e sem controlo. Havia sido apanhada em falso, do nada, quando alguém me perguntou (antevendo a resposta por tão bem conhecer os meandros de mim) se sentia saudades dele. Aquelas duas palavras, o nome dele e “saudades”, como duas pequenas gotas que obrigaram os meus mares a transbordar, a derrubar os diques que tanto havia engenhado para não quebrarem.


Foi num desses dias, de pensamentos acorrentados e palavras abafadas, que tudo desabou. Cheguei, à hora habitual, no lugar habitual - uma das poucas rotinas com que vou convivendo pacificamente. Quando me aproximei para sentar, os joelhos, juro, tremeram. Não queria acreditar. Ali, no “meu” canto, alguém escrevera o seu nome, em maiúsculas como que a berrar-me que não podia fingir que não estavam ali. Porquê o seu nome, que foge a sete pés da oblíqua escuridão em que todos os Pedros e Paulos e Josés e Antónios se atropelam aos tropeções?! Aquele nome que, quanto mais virava costas, mais a cidade gritava aos meus olhos, dedos e ouvidos. Estava por toda a parte, a multiplicar-se como quando se compra um carro novo e os seus gémeos repentinamente erguem o pescoço entre as congestionadas multidões. Assim era o nome dele, repetido, esgotado, fantasmagoricamente assolando cada dia e cada noite, cada livro, cada café, por toda a urbe e até naquele chiado ondulante… Que ausência de ordem é esta neste universo, que faz questão de mo impor, quando só lhe quero fugir? Quando, no fundo, só quero aninhar-me nos seus braços e fazê-lo meu. Sentei-me sem saber como não quebrar, hipnotizada na realidade que fugia. Foi nesse momento exacto, em que o seu nome surgiu tatuado no meu seat by the window, que baixei as defesas, abri mão da carapaça e voltei a casa, ao lugar que é só meu. Onde me encontro comigo, e com ele, que faz inevitavelmente parte de mim. Retornei a mim, ciente que estou por minha conta, mas liberta de medos e máscaras, liberta da negação do que foi e que continua a ser. Não foi fácil, não foi uma cedência. Foi antes o culminar duma árdua luta que não queria ganhar. Foi mais do que baixar os braços, foi aceitar uma verdade que queima o peito como ferros em brasa. Foi saber que o íngreme caminho que é o meu (que não escolhi e que não tenho poder para recusar) não tem atalhos e que terei de percorrê-lo descalça. Sob sol, chuva, neve e granizo e sem garantias de algum dia chegar ao cume da gigante montanha.


Tal como aquela tinta azul, de esferográfica que mais parece permanente, que não cede, não desgasta, assim em mim permanece a companhia que deixei de evitar, o sentimento que deixei de negar. Já não fujo ao seu encontro nem ao seu nome. Já não fujo à vontade de cuidar dele e protegê-lo, de encaixar-me no seu corpo doce, de rir-lhe músicas feitas de amor. Enquanto assim for, nada tenho a lamentar. Não recusando que esta verdade venha a mudar, mas também não silenciando a força que tem o seu pulsar.

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por Ventania às 07:04

Domingo, 24.05.09

Henri de Toulouse-Lautrec

 





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por Ventania às 15:41

Sexta-feira, 22.05.09

Post Scriptum para F.

21-02-2009


 


"(...)


 


P.S. Independentemente de teres tido um comportamento absolutamente idiota desde o dia em que acabaste comigo, quero que saibas que não te guardo qualquer rancor. Nem sequer por todas as mentiras. Já não és importante o suficiente para não te perdoar. Desejo-te muito sinceramente que encontres a felicidade, que chegues a ser uma pessoa plena e de bem com a vida. Eu estou bem, fiquei mal na altura, como deves calcular, mas superei as dores e até percebi rapidamente que as coisas entre nós nunca poderiam resultar sem que alguém ficasse aquém dos seus objectivos na vida. Somos demasiado diferentes em demasiados aspectos. Tiveste uma lucidez maior que a minha, ou talvez a minha teimosia tivesse sido maior. Percebi que o enorme sentimento que tive por ti talvez não tivesse sido por TI, mas pela situação gerada. Talvez me tenha apaixonado pelas hipóteses, pela paixão que tiveste por mim, pelos muitos inegáveis fantásticos momentos que vivemos. É difícil definir sentimentos e chamar nomes às coisas. Se o tempo tivesse parado, provavelmente continuaria a chamar-lhe amor. Não sei… Mas quero que tenhas presente que nunca tive noção da diferença enquanto estive contigo; cada beijo, cada palavra, foi tudo verdadeiro e sentido, de coração puro. Fui tua, só tua, do primeiro ao último dia dos quase 5 anos que partilhámos.


A percepção da diferença veio depois, inesperadamente. A magnitude dos sentimentos (ainda que também a estes não os consiga definir) abateu-se sobre mim, acho que também sabes com quem. E não sem uma generosa dose de espanto, de incredulidade. Só prova que afinal conhecias-me profundamente. Independentemente do que possas ter pensado, foram sucessões de acasos que em ocasião alguma visaram atingir-te ou magoar-te, nada foi planeado ou sequer previsível. Foste tu que de repente me excluíste da tua vida, não deveria existir lugar a mágoas, certo? Se porventura ficaste magoado, só posso dizer que lamento. E sim, tinhas razão, ele é perfeito para mim. Fizemos uma viagem onde podia caber uma vida inteira, uma vida passada, em que tudo mudou para sempre. Em que eu mudei, cresci, aprendi tanto. Hoje sou uma pessoa tão diferente de quem conheceste… Tão mais consciente. E tão mais EU.


 


Espero que estejas bem e que saibas que, apesar dos pesares, se alguma vez precisares de mim para o que quer que seja, não te vou negar a amizade, a que dizias querer manter mas cuja hipótese te apavorou. (Sim, já sei que vais negar. Eu também te conheço bem.) Não condeno; É difícil gerir sentimentos, sobretudo quando se age contra a sua natureza.


 


Ia escrever-te uma mensagem sucinta e que acabou por ser uma declaração de (bons) sentimentos. Algumas coisas nunca mudam. :)


 


Fica bem. Um abraço,"


 


ipsis verbis... Feliz Aniversário!


 

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por Ventania às 05:32

Segunda-feira, 18.05.09

...

Ainda me lembro de quando me mostraste as estrelas. Foi quando as palavras pausaram e deram lugar à eloquência do silêncio.


 



 

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por Ventania às 22:42

Segunda-feira, 18.05.09

O AMOR QUANDO SE REVELA - Fernando Pessoa

O amor, quando se revela, 

Não se sabe revelar. 

Sabe bem olhar p'ra ela, 

Mas não lhe sabe falar. 



Quem quer dizer o que sente 

Não sabe o que há de dizer. 

Fala: parece que mente 

Cala: parece esquecer 



Ah, mas se ela adivinhasse, 

Se pudesse ouvir o olhar, 

E se um olhar lhe bastasse 

Pr'a saber que a estão a amar! 



Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente 

Fica sem alma nem fala, 

Fica só, inteiramente! 



Mas se isto puder contar-lhe 

O que não lhe ouso contar, 

Já não terei que falar-lhe 

Porque lhe estou a falar...


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por Ventania às 19:45

Domingo, 17.05.09

...

Já ninguém tem paciência para dramas que não sejam seus…

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por Ventania às 17:40

Domingo, 17.05.09

Erros

Erraste, sim, eu também, muito, muitas vezes. E também errei contigo, como tu comigo. Agredi, pressionei, forcei, gritei as minhas dores mais alto numa tentativa das abafar.


Sabemos bem que todos erramos, e erramos se não o admitirmos... Não que isso desfaça o erro, não que desate mágoas. Sem acusações. Sem maternalismos. Sem ralhetes. Um abraço e um beijo terno. Parece-me que podes precisar. Sem esperar nada de volta.


Sabes que estás há muito perdoado. E o perdão não tem nada de divino... Acho que só fala mais alto quando não há azedumes para alimentar ou que alimentem torturas. Confio, não tenho medos.


Talvez o perdão seja só uma manifestação da pureza dos sentimentos. Tu, perdoaste-me?

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por Ventania às 02:00

Sábado, 16.05.09

Todas as Ruas do Amor - Flor-de-Lis





 


 


 


Se sou tinta Tu és tela


Se sou chuva És aguarela

Se sou sal És branca areia

Se sou mar És maré-cheia

Se sou céu És nuvem nele

Se sou estrela És de encantar

Se sou noite És luz para ela

Se sou dia És o luar

Sou a voz Do coração

Numa carta Aberta ao mundo

Sou o espelho D’emoção

Do teu olhar Profundo

Sou um todo Num instante

Corpo dado Em jeito amante

Sou o tempo Que não passa

Quando a saudade Me abraça

Beija o mar O vento e a lua

Sou um sol Em neve nua

Em todas as ruas Do amor

Serás meu E eu serei tua

Se sou tinta Tu és tela

Se sou chuva És aguarela

Se sou sal És branca areia

Se sou mar És maré cheia

Se sou céu És nuvem nele

Se sou estrela És de encantar

Se sou noite És luz para ela

Se sou dia És o luar

Beija o mar O vento e a lua

Sou um sol Em neve nua


Em todas as ruas Do amor

Serás meu E eu serei tua

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por Ventania às 05:05

Sexta-feira, 08.05.09

Gone fishing

 


I knew I was going to get severely hurt. Still, it was worth it. No regrets, ever.

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por Ventania às 05:55

Quarta-feira, 06.05.09

Diego Vélasquez


As Meninas, 1656


Óleo sobre tela, 318 x 276 cm

Museu do Prado, Madrid


 



A Costureira, 1640


Óleo sobre tela, 74 x 60 cm


National Gallery of Art, Washington


 

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por Ventania às 23:56

Domingo, 03.05.09

de besta a bestial

Não deixa de me repugnar um pouco, e de me ofender bastante, que as pessoas troquem de opiniões como quem troca de cuecas. Vil facilitismo, este com que permitimos que se passe de besta a bestial, consoante nos agrade mais ou menos ao centro do umbigo.


 


 



 

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por Ventania às 10:32


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