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Ventania

In two days tomorrow will be yesterday.



Segunda-feira, 13.02.12

Pieguice pegada

Ela também fez algo do género. Não era Dia dos Namorados nem aniversário dele nem deles nem de ninguém, não era data nenhuma em particular. Até porque o fez várias vezes, porque sim, porque (achava ela) que todos os dias eram especiais, ou sem motivo para não o serem. Dúzias de papelinhos espalhados pela casa, nas gavetas, nos bolsos, na carteira, dentro do frigorífico e livros e jarras. Muitos, para nunca se esgotarem, em sítios improváveis para o lembrar que em qualquer ocasião ela estava presente e o aquele imenso amor também.

Alguns anos depois, quando ele decidir esvaziar um gavetão de sapatos ou um frasco de pacotes de açúcar, vai encontrar um bilhetinho, que vai ter escrito um código, com letras, corações ou nomes que não passam de memórias embaciadas e encarnadas. Não vai entender de início, só passados uns segundos vão meia dúzia de sinapses levá-lo de viagem astral até quem um dia chegou a ser. Não se sabe se vai ou não repetir o automatismo frio do passado e encestar outro papel amachucado, junto com a certeza dum sonho renegado.

 

Ela não vai tornar a pegar na caneta de ponta de feltro, encarnada da vergonha que são as paixões abandonadas em alto mar, nunca mais. Só se lembrou do medo, tanto medo, sentimento estranho e abafado que lhe apertava a gola da camisola enquanto chorava de braços abertos no alto duma qualquer falésia. Nas gavetas dela não havia bilhetinhos, nem cartas, nem um postal para exemplo. Não havia poemas em caixas bonitas, nem desabafos enamorados a ecoar nas paredes do hotel azul, nem fotografias, nem conchinhas da praia.

Foi vista a tomar balanço em alta velocidade e, do que se sabe, desvaneceu-se em pleno ar.

 

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por Ventania às 08:52



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