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Ventania

In two days tomorrow will be yesterday.



Sábado, 28.02.15

Post inteligente da semana

Mámen, you rule.

 

Sou feminista ou eu nunca entraria num lugar vedado a mulheres

 
A história é simples: uns hipsters lumberssexuais e essas coisas todas que estão na moda decidiram recriar um conceito holandês e fazer uma barbearia ao género clube da Bolinha, esperando que as Luluzinhas da capital do império fossem Luluzinhas e que acatassem o sinal de "menina não entra". Isto até pode funcionar na banda desenhada ou em Amesterdão depois de se fumar umas brocas.
O problemas dos hipsters lumberssexuais foi o de não tentarem prever, no seu brilhante plano de negócio, em que sociedade iriam fazer aterrar a nave espacial. E esquecerem-se que uma sociedade é feita de referências, história e caminho percorrido no alcance de direitos que, depois de ganhos, passam a ser irrevogáveis e ai de quaisquer putos hipsters lumberssexuais que venham colocar isso em causa.
A minha avó chamava o meu avô de senhor. Senhor Manuel. Em ocasiões mais íntimas de "senhor meu marido". Pedia a benção ao seu pai. Precisava de autorização primeiro de um e depois de outro para casar, sair do país e, mais tarde, votar. Casou por procuração em Portugal, com o pai a representar o marido, lá longe em Angola. Não trabalhava fora de casa. Não foi, durante muitos anos da sua vida cidadã de plenos direitos.
Como a minha avó tantas outras mulheres. As que não conseguiram ter voz para reclamar e as que lutaram pelos direitos à cidadania plena. Há cinquenta anos (apenas meio-século) as mulheres começaram a ter oportunidade de mostrar que eram capazes, por vezes, por força das circunstâncias  (emigração, guerra colonial que afastava os homens activos do país e as deixava entregues à sua própria sorte) outras por lucidez e consciência de que tinham que reclamar bem alto a igualdade entre homens e mulheres em termos de direitos e deveres de cidadania. 
Foi um processo duro e um caminho percorrido a suor, lágrimas e sangue o das mulheres portuguesas. Conquistaram o acesso a trabalhos anteriormente vedados a mulheres, a vestir calças, a estudar nas escolas, liceus, universidades, a fumar, a ter cabelo curto, "a fazer filhos por gosto". A decidir. Sobretudo, a serem donas das suas opiniões e a decidirem. 
Custou muito. Houve mortes e feridos no caminho e ainda não se chegou à meta da igualdade. Não há muitas mulheres a sentarem-se à mesa do Conselho de Ministros, dos conselhos de administração das grandes empresas, das direcções dos sindicatos, à frente das autarquias ou de fundações. A ganharem o mesmo que os seus colegas em funções análogas. 
Continua a ser imediato pensar-se em mulheres quando se ouve a expressão "vítimas de violência doméstica" ou "prostituição de rua". As mulheres continuam a morrer nas mãos de maridos, companheiros, pouco (e)namorados. 
Talvez os rapazes hipsters lumberssexuais não tenham tido uma avó que chamasse o marido por senhor. Por isso acharam vintage cool retro coiso adaptar o conceito em Portugal. Não me preocupo muito com o negócio que não irá resistir por falta de clientela: é que entre turistas e misóginos num instante se esgotará a clientela. 
Porque os homens, os homens feministas, aqueles que acreditam que as mulheres têm, efectivamente, igualdade no direito a usufruir dos mesmos direitos e deveres, sem excepção, esses não quererão entrar num lugar vedado às suas semelhantes. Com sinal à porta,  Porque somos parte do mesmo endo-grupo: o dos cidadãos de pleno direito. Pessoas. Gente. 
Sobrarão os "trolhas" que acham graça ao conceito. Mas nem aí se devem safar. Estou certo que cortam o cabelo a 5€ lá no baeta do bairro...

 

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por Ventania às 18:00



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