Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Ventania

In two days tomorrow will be yesterday.


Segunda-feira, 20.08.12

Breve estória de um abraço à beira-chuva

Desejo-te perto e vens buscar-me, levas-me de urgência escadas abaixo para contemplar o rio à beira-chuva. Descalços, ambos, por relvas e troncos e pardais. Sensualidade molhada de seios e umbigo, arrepios, do frio e da proximidade da tua pele. Não sorris, sequer vocalizas o que quer que seja. Os teus dois olhos escurecidos, carregados de verdade. Pegas-me nos pulsos e olhas-me de frente como se me fosses anunciar um fim de mundo. Sério, grave. Os lábios entreabrem-se como que a desenhar palavras no ar, como que a tomar coragem. Toda eu um ponto de interrogação, exclamação, reticências… O cabelo molhado, sem ordem, a enganar. Um fingido cansaço desarma e a respiração acelera. Pingos grossos acariciam a cara, lambem os ombros, deslizam matreiros pelas costas. A névoa que sempre separa os meus olhos dos teus dissipa-se num bafo. Procuro ler-te, ansiosa por pular para dentro dum sonho. Murmuras: “E se disser que gosto de ti?” Conheço bem esta espiral, que sempre impões diante de mim, sem portas nem refúgios, apenas o infinito, aberto, à espera de ser colhido. “Quando o pensamento de mim te siga a todas as horas, quando souberes que a vontade é maior do que só a de ter o casulo do ego acarinhado; Quando reconheceres muito mais que uma doce empatia. Quando sob pálpebras cerradas o coração chamar o meu nome. Só nesse dia voltarás a ter-me tua.”


 


Solto uma mão e com um polegar afago a tua face desmascarada. Apertas-me contra o peito, não te importas de confessar uma lágrima, espessa, outra. Carinho, dor, amor, identidade. Estes que somos.


 


Por te amar, mudei. E decidi tornar a amar só quando esse dia chegar. Naquele abraço permanecemos, sem tempo, enquanto a chuva molhar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 10:00

Domingo, 19.08.12

Aos 27 de Abril de 2008

Fustigados por desamores e espinhos q.b., ele era receios sem fim, ela destemida de asas abertas. Renderam-se ambos, deram-se as mãos, decisões, trocaram corações. Ela vontade de ir, ele ansiedade de chegar. Ele águas e ondas, ela ventos e montes. Gostaram-se. Do outro e mais de cada um nos reflexos do outro. Descobertas, reticências, ternuras e cedências. Laços dum, amarras doutro.


 


Um de estar, outro de vagabundear. Um de nuvens, outro de mar. Um de efémero, outro de brutal. Um de neve, outro de areal. Um de fiel, outro de planar. Um de leis, outro das quebrar.


 


Ela insistia que o sonho cheirava a flores e ervas, ele sem forças para correr nos bosques. Ele de braços abertos, ela de punhos cerrados. Ela de olhos postos, ele de pés fincados.


 


Ela do norte, ele do sul. Se ela chorava, ele a abraçava. Se ela beijava, ele a desejava. Se ele esmorecia, ela o elevava.


 


Um a puxar, o outro a deixar estar. Ele a dormir, ela a sonhar. Ele a sorrir, ela a cantar. Equilibravam-se num ponto médio, longe do centro gravítico do ser. Ele mentia, ela sabia. Ela fugia, ele permitia.


 


Ele desertou. Ela libertou.


 


Não se pode voar quando as asas estão acorrentadas. É dia de celebrar a liberdade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 10:41

Quinta-feira, 01.03.12

prova dos 9

As provas de amor não são jóias, não são ramos de flores sem fim, não são carros nem férias de luxo. As provas de amor nunca são presentes que se pedem ou que se avaliam pelo valor transaccional. As provas de amor são sempre actos de dedicação, de carinho, são surpresinhas que espantam e deliciam. As provas de amor valem pela atenção com que se ouve o outro, pelo quão bem se demonstra conhecê-lo, pelo cuidado de o mimar. O amor não tem preço, não se pode comprar nem vender. Por isso não se pode (não se deve) querer dizer com um presente "gosto tanto de ti que gastei duzentos euros"; é ofensivo, a sério. Se eu nem uso relógio, como posso achar que um Tissot xpto seria uma prova de amor?!

 

As melhores provas de amor são pequenos detalhes, são momentos instantâneos e actos tangentes. São pequenos nadas como ele levar o formulário de inscrição à piscina para ela não ter de lá ir de propósito, ou convidá-la para o acompanhar à Biblioteca porque ela mencionou que tinha de renovar o cartão. São lembranças como deixar-lhe a mesa posta e uma flor na jarra quando ele chega cansado à meia-noite, ou abdicar de três horas de sono só para lhe dar um beijinho. São ir esperá-lo à estação a meio da noite para o ver sorrir, perguntar como correu aquela coisa no trabalho, ter sempre um pacote das bolachas que ele gosta, ou deixá-lo escolher um filme aborrecido. São poemas que ele escreve a pensar nela e prosas que ela escreve a pensar nele, são fotografias em que se vê uma beleza que os outros nem vislumbram. Provas de amor são improbabilidades como ela levá-lo a um jogo de futebol da equipa que abomina ou compilar uma playlist das músicas que ele gosta. São, por vezes, sacrifícios como assumir as culpas por um erro do outro, tolerar o cheiro pestilento a tabaco emaranhado nas roupas e cabelos, e são as súplicas para que se páre de fumar. São voluntarismos como antecipar as tarefas domésticas que a deixam de rastos antes dela pedir ajuda, ou dar-lhe uma massagem nas costas doridas. São cuidados como perguntar a opinião antes de tomar decisões que afectam o outro, levantar a horas para que não atrasar quem tem mais pressa, não fazer barulho para não acordar o outro, oferecer uma torrada se se vai fazer outra ou perguntar se também quer vir dar um passeio pela rua. São elogios às pequenas particularidades, ao pequeno sinal na bochecha, ao penteado ou ao cheiro bom da pele.

As provas de amor são silêncios de concordância, são espaços de partilha, são diálogos com o olhar, risadas cúmplices e margem para erros. São perdões, são tolerâncias, reconhecimento e agradecimentos, são meter o orgulho de parte, tomar riscos e enfrentar contrariedades. São entregas de corpo e alma, são intimidades no sexo e para além dele, atender sempre o telefone, ter sempre um ombro amigo e nunca virar as costas.

 

As provas de amor são as mesmas que as provas de desamor. Umas estão lá, as outras não.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 09:53

Terça-feira, 28.02.12

O Amor é como Deus.

Dava muito jeito que existissem para podermos explicar e entender muitas coisas, mas... não existem.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

por Ventania às 08:42

Quinta-feira, 23.02.12

loop

Estou presa num loop. A enlouquecer, tonta, num loop que se repete ad eternum.

Os mesmos nomes, as mesmas caras, as mesmas frases. As aproximações, as fugas, as rejeições, o medo, os argumentos, as expectativas, os sorrisos, a audácia, o risco, a entrega, a paz, a ausência, o conflito, a dor, a mágoa, o perdão, a mágoa maior, o amor, a confiança, a desilusão, a ruptura, a dor maior, o luto, a revolta, o amor, a saudade, a dor, a desilusão, as fugas, a saudade, o amor, as cicatrizes, as aproximações, as fugas...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 09:09

Segunda-feira, 13.02.12

Pieguice pegada

Ela também fez algo do género. Não era Dia dos Namorados nem aniversário dele nem deles nem de ninguém, não era data nenhuma em particular. Até porque o fez várias vezes, porque sim, porque (achava ela) que todos os dias eram especiais, ou sem motivo para não o serem. Dúzias de papelinhos espalhados pela casa, nas gavetas, nos bolsos, na carteira, dentro do frigorífico e livros e jarras. Muitos, para nunca se esgotarem, em sítios improváveis para o lembrar que em qualquer ocasião ela estava presente e o aquele imenso amor também.

Alguns anos depois, quando ele decidir esvaziar um gavetão de sapatos ou um frasco de pacotes de açúcar, vai encontrar um bilhetinho, que vai ter escrito um código, com letras, corações ou nomes que não passam de memórias embaciadas e encarnadas. Não vai entender de início, só passados uns segundos vão meia dúzia de sinapses levá-lo de viagem astral até quem um dia chegou a ser. Não se sabe se vai ou não repetir o automatismo frio do passado e encestar outro papel amachucado, junto com a certeza dum sonho renegado.

 

Ela não vai tornar a pegar na caneta de ponta de feltro, encarnada da vergonha que são as paixões abandonadas em alto mar, nunca mais. Só se lembrou do medo, tanto medo, sentimento estranho e abafado que lhe apertava a gola da camisola enquanto chorava de braços abertos no alto duma qualquer falésia. Nas gavetas dela não havia bilhetinhos, nem cartas, nem um postal para exemplo. Não havia poemas em caixas bonitas, nem desabafos enamorados a ecoar nas paredes do hotel azul, nem fotografias, nem conchinhas da praia.

Foi vista a tomar balanço em alta velocidade e, do que se sabe, desvaneceu-se em pleno ar.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 08:52

Sexta-feira, 03.02.12

seed

A cultivar o amor como sementeira. Porque dar a alguém a chance de amar sem contas feitas ao deve e haver é uma maçã envenenada de candura. Sim, permito que me ames por quem não sou. Vês como sabes amar?

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 09:40

Terça-feira, 31.01.12

um registo fotográfico perdido

Ele não gostava de surpresas, mas achou-a surpreendente. Ela levou-o pela mão, escadas acima, escadas abaixo, sem norte nem plano para além da ambição de ir mais longe e onde nunca antes tinham ido. Entre olhares e sorrisos, diziam toda a poesia que lhes corria nas veias. Ela rodopiava, ele assobiava. Distraídos os dois, embevecidos os dois.

As montras de luxo passavam despercebidas, ela detinha-se a admirar e enquadrar pequenas belezas do universo que florescem em canteiros públicos, enquanto ele interrompia o cigarro para se deter neste mesmo pensamento. Não resistiu a fotografá-la também, orgulhoso da mulher que trazia dentro do coração.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

por Ventania às 09:26

Sexta-feira, 27.01.12

Mãos vazias

Lembras-te quando apertavas tanto as minhas mãos que eu ficava com nódoas negras?
Enquanto passeávamos na rua, quando dormíamos lado a lado, quando íamos ao cinema. Sempre os dedos tão juntos e entrelaçados que pareciam personagens dum tango sensual, uns no prolongamento dos outros, como se sussurrassem ao ouvido, abraçados, enamorados.
Lembras-te do enamoramento? E de quando as tuas mãos procuravam as minhas e não descansavam enquanto não as tivessem? Lembras-te de quando os beijos eram pingos de orvalho que brotavam nas flores que me punhas nas mãos?
Lembras-te de falar comigo como quem declama poesia, de me olhar como quem está em casa, de me amares como eu nunca pensei ser amada?
Se te esqueceste, lembra-te do que diziam as nossas mãos, as flores na almofada, os nossos sorrisos. Porque nunca mais ninguém nos voltará a dizer o mesmo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 09:00

Quarta-feira, 25.01.12

Não é só o Seal, povo

Há muito boa gente que depois da separação continua a usar a anilha aliança. As motivações, temos duas à escolha, consoante estejamos numa de cinismo e descrença no amor - sentimento de culpa pela merda que se fez - ou numa nuvem cor-de-rosa onde a paixão cega - o amor não morreu.

 

Descendo à terra, convenhamos... Toda a gente ama e toda a gente erra, não me venham com merdas. Nem há pessoas incapazes de amar, nem há príncipes e princesas encantados que sejam um modelo de virtude e rectidão sempre e em tudo. Nem há um herói e um vilão em cada relação que falha. Dentro da casa (e da cabeça, e do coração) de cada um, mais ninguém sabe o que se passa. Uns são mais resistentes, outros esforçam-se menos, cada um é como cada qual, mas nada disso significa que não haja amor de ambos os lados, ou até que o amor não persista depois do fim do casamento. Eu continuo a acreditar, e com cada vez mais certezas, que o Amor, quando é mesmo Amor, nunca morre, ponto. "Till death do us part", com ou sem alianças.

 

 

Portanto vamos tentar não julgar os outros sem conhecimento de causa, sim?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

por Ventania às 11:55

Terça-feira, 24.01.12

Nha Cretcheu - Sara Tavares

 

Sair à rua com uma sede imensa
de te esqueçer
sentar-me num lugar com indiferença
por não te ver
e de repente sei que é isto que eu não quero
olhar à volta e saber que ainda te espero
sentir a sensação de quem não está no seu lugar
não quero lá estar
assim...

nha cretcheu
nha cretcheu...

voltar a casa com um sentimento
de solidão, 
fingir que estás no pensamento
sem razão
e de repente sei que é isto que não quero
voltar a casa e saber que ainda te espero
fazer de conta que já estou no meu lugar
mas não quero lá estar
assim...

nha cretcheu
nha cretcheu...

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 20:55

Terça-feira, 24.01.12

What's real?

Consegui contigo, como nunca antes tinha conseguido, visualizar o futuro das imagens que me plantaste. Nós dois a correr mundo de mãos dadas e sorrisos ao alto, a chegada dos bebés que tanto me pedias, os nossos abraços cada vez mais estreitos, os sorrisos cada vez mais cúmplices, envelhecermos juntos no campo, na quietude que tanta falta nos faz. Visualizei netos a ouvirem embevecidos a nossa história, a mais linda de todas, passeios de bicicleta com aquele perfume do nosso rio, milhares de disparos de obturador a perpetuar o que foi nosso desde sempre, os passos gigantes nas promessas que nos fizémos.

Vi claramente todas as imagens.

E acreditei que seria assim. Tu fizeste-me acreditar. Tinhas a certeza, repetias. Era o nosso destino, que escolhemos de entre todos por ser o mais bonito, o mais certo, o único feito de luz.

 

Se já nem na minha cabeça podia confiar, se o nosso filme foi cortado e a bobine quebrou, que mais podia eu fazer?
No, you weren't for real. You should have told me.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 09:00

Terça-feira, 24.01.12

...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

por Ventania às 08:00

Quarta-feira, 18.01.12

O (Grande) Zé Luís esceveu por mim.

Amor burguês

Havemos de engordar juntos.

 

Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz "cliente seguinte", estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos.

 

As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento.

 

É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.

 

Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.

 

As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.

 

Havemos de engordar juntos.

 

Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.

 

Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.

 

E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.

 

Nós acreditávamos.

 

Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro, 2012)

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 21:38

Segunda-feira, 16.01.12

Amar como te Amei - Donna Maria

Amar como te amei ninguém mais ama
De tanto que nem sei se vale a pena
Amar, e sempre amar a quem mais clama
O nosso desamor feito dilema
Dar e não saber se quem recebe
É cego ou não quer ver toda a saudade
Que existe, e que persiste e não percebe
O triste deste amor em fim de tarde
Ninguém mais do que tu foi tão verdade
Das coisas que nos dão razão à vida
Prisão que ontem foi de liberdade
E hoje se transforma em chaga viva
Amar como te amei ninguém mais ama
De tanto que nem sei se vale a pena
Manter nesta paixão acesa a chama
Ou apagar num sopro este dilema
Ninguém mais do que tu foi tão verdade
Das coisas que nos dão razão à vida
Prisão que ontem foi de liberdade
E hoje se transforma em chaga viva

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 16:58

Segunda-feira, 16.01.12

Let's fly away

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 02:11

Sábado, 14.01.12

Mas, ó MEC...

E quando conheces o teu coração e sabes que ele não cansa? Quando sabes que do mesmo modo que sempre arranja fôlego para amar mais um pedacinho, para perdoar, para aguentar o insustentável, o teu coração quando ama não deixa de amar, não te deixa esquecer?

Há corações assim. O luto dura, e dura, e dura, as memórias são corridas a pente fino e depois repetem e repetem e repetem. E deixa-se correr, na esperança que um dia passe a dor e o amor. E correm suspiros agarrados a lágrimas saídas lá do fundo, correm, correm. Tanto sal, tanto sal. A dor apega-se ao coração, anda sempre juntinha, como um nó que se usa ao peito, à espera que alguém tenha unhas para o desatar. E pesa. E quanto mais tempo passa mais pesa. A dor em estado líquido procura pretextos para se soltar sem assumir o nome que tem, procura uma cena dum livro, um filme lamechas, um silêncio às escondidas. E passam os meses e os anos e a dor está lá, onde ainda está o amor, empedernido e sólido e persistente. Como esqueces, quando deixas aproximar alguém do coração, que deita a mão ao nó, o afaga, te embala, te mostra o amor em cores novas e deliciosas, e acaba por fazer um nó maior e mais apertado em cima do outro? Se um coração sobrelotado já é tão confuso de gerir, como fazer quando precisas de fazer limpezas lá dentro e as portas e janelas estão todas fechadas a cadeado?

 

Como se desatam nós destes a não ser com navalhas?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 11:46

Sábado, 14.01.12

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 
É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Miguel Esteves Cardoso, in Último Volume

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 11:29

Terça-feira, 27.12.11

...


Love Song
- William Carlos Williams in Al Que Quiere!

Daisies are broken
petals are new of the day
stems lift to the grass tops
they catch on shoes
part in the middle
leave the roots and leaves secure

Black branches 
carry square leaves
to the wood’s top.
They hold firm
break with a roar
show the white!

Your moods are slow
the shedding of leaves
and sure
the return in May!

We walked
in your father’s grove
and saw the great oaks lying with roots
ripped from the ground.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 21:45

Quarta-feira, 07.12.11

This is it!

A todos os que, como eu, dão voltas e voltas para racionalizar o que não se deve, tenho o prazer de anunciar uma luz ao fundo do túnel. {#emotions_dlg.online}

 

Já se descobriu a fórmula matemática do amor.

Já tinha visto a fórmula do croissant e outras bizarrias, mas a do amor superou tudo.

 

Atentai: (sqrt(cos(x))*cos(200*x)+sqrt(abs(x))-0.7)*(4-x*x)^0.01sqrt(9-x^2)-sqrt(9-x^2)

 

Perceberam? Não?! Google it. Really. ;)

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ventania às 07:59


Pesquisar

Pesquisar no Blog  


calendário

Março 2015

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031


Posts mais comentados